Sou minha nau e meu oceano.
terça-feira, 23 de julho de 2024
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
A causa da morte
Talvez a morte tenha sido sempre sorrateira, sempre aqui costurada às minhas carnes, sangrando as minhas perdas. Ou mesmo encerrando as estações, os tempos, mesmo as alegrias. Olho a criança de seis anos e penso “ tanto viço, que vida mais verdejante, como pulsa esse pequeno”. Mas de quantas versões bochechudas, saboreadas, cheiradas, deste pequeno mais tenro tive de me despedir? Da primeira fralda, o primeiro dentinho, os gritinhos, todos esses, uma morte doce e alegre, mas ainda assim uma morte, me levou de meu não leve, para me trazer outras alegrias, outros sóis.
Penso que a morte não culmina a vida, não chega só ao final, depois de um feliz atraso, como uma noiva de sombrias vestes. Vem antes, desde o sempre, amalgamada no tecido da vida. É por causa da morte que a gente ama. Essa dama. Grande organizadora da vida. É por causa do seu limite, cravado fundo em nosso dorso, que a vida nos falta e que, por isso mesmo, se nos dá. É por causa da morte que a gente cuida daquele que, por causa dela, pode partir e por isso mesmo, se faz precioso. O amor incrustado na efemeridade das coisas, no comezinho, no aceno. Por causa dela não nos digladiamos todos feito feras, ainda que por torpeza e burrice, o façamos tantas e demais vezes. É porque me falta um flanco, que a morte faz nascer e morrer, que me recrio, lanço de mim prolongamentos, pernas, haustos, tentáculos de viver, senescendo, fluindo. É por causa da morte que a vida não é uma paisagem imóvel, ela se nos desfila, passa, move, arremessa. Quantas versões de nós já morreram para que nós habitássemos quem somos (e amamos) hoje? A morte. Essa maldita tecedeira, que rasga e queima e cose. Que nos enterra dentro dos nossos nascimentos. Empurra nossa cabeça pra luz do mundo, pro mundo que insistimos turvar. Ela chega com seus óculos, atirando tanta nitidez, tanta acuidade, corre, veja, olhe cá o que importa, cuida, canta. Sangra. Pranteia. Vive. Ama. É por causa da morte.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
terça-feira, 17 de maio de 2011
domingo, 5 de setembro de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Retrato
Coisa esquisita isso de grafar dentruras
A palavra esbaforida, dedos curtos no que é fugidio, viscoso, veloz
Viver é mesmo coisa indizedoura, fica relinchando , escoiceando tudo quanto é nome
por enquanto o que posso é espiar, tentar murmúrio
o olho lotado de agora
o poro, casa vasta de se adentrar mundo
o corpo meu objeto, minha casa-asa de amar, alar o tempo
Eu? alma, acaso e flor
quinta-feira, 28 de maio de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
Quero escrever um ato vazio. Janela esfaqueada no peito pra um sol de ébano. Peito-correnteza, peito do leite doce dos silêncios. Coração ternura triste, arrastando vazio por todo o corpo. Nenhum dique de luz. Jorragem. Travessia de escuros. Viver é desanúncio. Escuro é templo. Me escondo numa poça recôndita, numa víscera até pra mim longínqua, tranço tranças de escuridões elásticas, me amamento no arrepio dos nadas. Colho no vago o comer das minhas esfinges. Não quero resposta. Quero um caldo que me venha da angústia, que me abençoe as fissuras, me apascente os desfiladeiros. Quero hoje ensolarar-me de ser só.
quinta-feira, 26 de março de 2009
quarta-feira, 25 de março de 2009
Ser mulher é missão de ignescência
Abro a janela para que o hausto do dia me beije
Tão bonita a vida ardendo o dia
Flamejo
Tenho dentro um vermelho de filhos
Verto lava quando se me revoltam as fertilidades
Segura a minha mão, eu vou te gritar nascimentos
Meu trabalho é de parto, reparto, desapequeno o possível
Amo
Subo no telhado do mundo pra pulsar no vento
Quero meu cabelo assanhado
Receber lufadas de devir como uma rosa-dos-ventres
Girar ao sabor das minhas natividades
Há de ser amoroso, há de ser belo, há de ser "entre"
Estou tão amorosa que o meu peito se constringe
"Entre" é pulsante demais
Adormeço, sangro
Meu leito é o mundo no peito
terça-feira, 24 de março de 2009
terça-feira, 10 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
sábado, 7 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Armada de minha nudez, eu milito contra o plástico. Armada de minha nudez, dos meus poros quentes e sedentos como os teus. Solidão, um fosso aberto no lugar da placenta. Enigma sugante e escuro no lugar do chão. Gente dói. A morte e o gume de suas amputações. Sabes quando choras até esvair-se em ser? Quando vomitas um pé e um chão? Quando vomitas um órgão ermo que, nem sabias, habitava o teu estômago? A vida tornou-se sedenta como uma população de giz. Quando não há oásis a gente aprende a ser cáctus? Incursiono pelas minhas profundas aléias e te trago um buquê entretecido de flores tão apaixonadamente minhas.
Tu tens medo de dar-me a mão? Sei que te falo de um jeito que te arrasta cá para as funduras. Tenho palavras afundadoras, eu sei. É que este é meu habitat natural e para cá te convido. Dá medo, mas é tão lindo, tu nem imaginas. Ou será que já o sabes? Aqui a gente é de lupa nos poros. A gente sente, avassaladoramente. A gente escuta a correnteza do íntimo vinho em seu incansável curso, banhando as entranhas. Um mar vermelho e suas vivas estocadas. Escuto a toada da tua existência em confluência com a minha. Quando estou aqui, sou-te e és-me numa mesma entrepele. Namoro silente o halo amoroso do teu olhar. Percebo quando o ângulo frágil da tua retina se crispa dizendo de dores no teu profundo. Ou de perplexidades. Ou de sentimentos indecifráveis. Sei quando me pedes porque é daqui que eu te preciso tanto. É daqui, amor, que um humano nutre outro humano. E a tua face fica tão linda. O bom do teu abraço fica tão intenso. Me deixa falar. Me dá do teu encontro. A palavra me desinibe e apraz-me ser na tua frente.