quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Menina dos olhos do sonho
Eu só cobiço um dia de viço
Não precisa rima nem sina
Eu só rabisco e insisto
O sonho que sonha a menina
A menina tem olhos de sonho
E o sonho dela é a menina dos olhos
Não sei se a menina é dos olhos
Ou se é menina do sonho
Porque menina sem sonho
É olho sem menina
E até no sonho da sina
Tem menina pra ter sonho
Parto
Um corpo adoecido
Emagrecendo paulatino, esvaziando-se de si
Minhas células conspiram contra mim?
Ou apenas me remam ao meu encontro?
Eu que sempre fui eu agora sou vetor de mim para onde
Para onde.
Inexoravelmente, estoicamente, incandescente, murchante
Bebendo do dúbio copo, metade vida, metade morte
Pêndulo estéril de oráculos
Talvez eu sare, talvez eu morra, talvez eu perceba
Que a vida foi sempre um caudaloso talvez
Talvez eu saiba que amei tanto e tanto
Que a vida foi excruciante vida deleitosa, leitosa e sementeira
Talvez eu manche o avental da enfermeira de uma rubra transcendência
Vermelho mais luminoso que vermelho
Mais unguento que cruento
Talvez eu a ame indelevelmente
Talvez eu lhe conte o meu segredo de prenhez travestida de despedida
Talvez eu sangre nela a minha vivacidade e a minha lucidez
Talvez eu encomende cuidados aos meus que ficam
Adorados, amados
Suo mais de saudade que de febre
Eu que adoeço a dor difícil de um novo começo
Talvez eu jejue de mim mesma
Última corajosa refeição para que eu, enfim, caiba num corpo de gênese

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Advertência
Não brinca com gasolina sobre o corpo das palavras que elas sabem ser sol.
"Claricices"
Silêncio. Palavras amamentando pessoas. Quero sobrevoar minhas reentrâncias, fazer piruetas no ar de meus cernes. Hei de içar borboletas cheirando a terra. E de uma secreta dor eu gesto as minhas asas, preparo no ar a minha mangedoura, ainda que me pesem as asas sujas de terra. Será que é amor o nome desse húmus? Será que é fé a encorpadura desses caules? E de multi-galhos eu quero viver, eu quero angariar divindade.
Deus, será que se eu me deitar bem fundo no avesso de mim, eu Te toco? Também Tuas mãos etéreas vejo sujas de terra. Não é curioso eu estar me lavando na terra em que me instalastes? Eu mordo a terra porque sou ser fotóvoro.
Holofotes sutis desvelam a minha intra-aurora. E de tanto me despir eu me encho de pétalas. Que é em estado de nudez absoluta que eu amo. Eu, nudez tanta, revirgino-me, rego mais amores. Que quanto mais eu me desnudo, mais eu escancaro a minha mistura de terra e luz.
Dou minha mão em casamento ao meu desnudamento. E nunca haverá mais sacro despudor. Alguém já ouviu falar em gente destilada? Se consegue lavando gente com terra. E pensar que um dia foi tanta dor, como se eu tivesse dormido no fel. Mas chega o tempo do despertar e, fel-incitada, acordei. Ou fel-excitada, não sei. Sou do amor que sei e des-sei, inconclusa e cotidianamente. Lembra que eu me revirgino? Tenho um estoque inesgotável de hímens, tal qual meus óvulos. É preciso maturá-los para, então, revirginá-los. E é tudo que eu digo me reparindo. Palavras parindo pessoas. Será que se pode chamar de dor a vida dilatando a pelve? É dor a vida esgarçando a superficialidade para nascer?
Que graça de traça
Ai amor, te atentas à tua toga que ela está forrada de traças e de leis baças
Ai que a toga quer mesmo é virar lona de circo
porque vê criança injustiçada sem brinquedo e sem direito a riso
A toga de traça quer mais é fazer troça
até ver criança de riso escondido e costela de fora
amar colorido o homem da toga que dá cambalhotas e sentencia sorisos
Ah que toga sem juízo
O homem da toga, sisudo e conciso
alberga também, debaixo da toga,
criança magrela que já não sabe
chamar o mundo de paraíso
Ah, é porque as suas leis têm números demais
E os números desaprendem nos homens as suas piruetas
E não sabe mais ver criança de barriga balançando, cheia de riso e algodão doce
Quem sou eu e quem és tu, nesse show de rebuliço?
Os adultos da toga que deixaram órfãos so seus papéis?
Não me lembro quem eu sou: a toga, a traça, a lona?
Ai amor, meu papel eu não o tenho lido e sabido
E é banguela a minha jurisprudência
Só me deixe ao lado da criança
Porque a barriga de riso tem fome
e pra ela, eu sei que é preciso,
que eu corra a cozer rapidinho
um mundo, ao menos um pouco,
com gosto de paraíso
Instante
Vi foto de beija-flor tão linda que me espirou néctar. E olhei com um olho tão enxergado que virei lágrima. O sentido das coisas ficou tão intenso que galgou para um lugar chamado silêncio. O silêncio é a quintessência do sentido.
Jurisprudência
Somos tão sábios e há sangue na nossa toga. São tão rápidos os nossos chips que já não apreendem sequer a durabilidade de um sorriso. São tão velozes os nossos trilhos e milimétricas as nossas estações, que já não sazonam sequer a nossa compreensão de nós mesmos. Eu já não desço mais do bonde para te abraçar. Já não tenho tempo de sentir o que sou eu. Amputo as coisas das coisas. Porque sou tão meteórica e pirotécnica que já não me posso apreender. Até quis olhar no espelho, mas eu já tinha passado.
Tenho saudades de me sentar comigo na varanda, sob o sigilo das samambaias, sob a lira dos pintassilgos. Como faz falta gente na vida! Tenho saudades de me deitar na relva sobre o amor das coisas. Sou sensacional e já não tenho sensações, nem tempo de me comemorar. Envolveram meu corpo em papel celofane (e eu queria abraço de criança) e a minha caricatura embrulhada sorri um sorriso estético e enfermiço. Eu chamo de opulência a minha fome. Eu chamo de mundo meu franco desespero.
Eu quero me espraiar nos prados sobre a volúpia da terra. Dentro de mim, venho sonhando a minha vocação de enxada. Porque preciso revolver a minha casa e arejá-la com túneis humanos. O que fiz de minha oca? Vou sonhar searas da cor de tudo que eu preciso.