sábado, 7 de fevereiro de 2009

À procura
Estou perdida e sagrada como o amparo de uma dor.
Comezinha
Quero ser comezinha como o milho dos pombos enfeitando os caminhos
Como a preguiça das jabuticabas descansadas num chão coalhado de pés meninos
Como bolo de fubá esfarelando em mãos calejadas de há tanto tempo amar tanto
Como redes morosas, ninando os corpos no sagrado das varandas
Como pipocas numa tarde ontem
pululando sonhos
dizendo infâncias nos olhos das crianças das minhas saudades
Como o amor das folhas recém-amadas pela chuva
Como banho de criança, ô coisa bonita
Algumas coisas são minhas demais
Hei de um dia ser comezinha como o amor de um aceno

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Encontro

Armada de minha nudez, eu milito contra o plástico. Armada de minha nudez, dos meus poros quentes e sedentos como os teus. Solidão, um fosso aberto no lugar da placenta. Enigma sugante e escuro no lugar do chão. Gente dói. A morte e o gume de suas amputações. Sabes quando choras até esvair-se em ser? Quando vomitas um pé e um chão? Quando vomitas um órgão ermo que, nem sabias, habitava o teu estômago? A vida tornou-se sedenta como uma população de giz. Quando não há oásis a gente aprende a ser cáctus? Incursiono pelas minhas profundas aléias e te trago um buquê entretecido de flores tão apaixonadamente minhas.

Tu tens medo de dar-me a mão? Sei que te falo de um jeito que te arrasta cá para as funduras. Tenho palavras afundadoras, eu sei. É que este é meu habitat natural e para cá te convido. Dá medo, mas é tão lindo, tu nem imaginas. Ou será que já o sabes? Aqui a gente é de lupa nos poros. A gente sente, avassaladoramente. A gente escuta a correnteza do íntimo vinho em seu incansável curso, banhando as entranhas. Um mar vermelho e suas vivas estocadas. Escuto a toada da tua existência em confluência com a minha. Quando estou aqui, sou-te e és-me numa mesma entrepele. Namoro silente o halo amoroso do teu olhar. Percebo quando o ângulo frágil da tua retina se crispa dizendo de dores no teu profundo. Ou de perplexidades. Ou de sentimentos indecifráveis. Sei quando me pedes porque é daqui que eu te preciso tanto. É daqui, amor, que um humano nutre outro humano. E a tua face fica tão linda. O bom do teu abraço fica tão intenso. Me deixa falar. Me dá do teu encontro. A palavra me desinibe e apraz-me ser na tua frente.

Psicologia

Eu fiz Psicologia. Inacomodável em palavras. Noites de espírito em polvorosa, alma fermentada de tantos saberes, seres e gestares. Ser psicólogo é fazer de si mesmo um lugar de encontro com o outro. A cada instante já não sou mais eu. O outro rebenta coisas no meu caule, se me enxerta. Eliciei um eu de sob a dor e o amor dessas carnes que me deram para que eu nelas acontecesse um humano. Carnes que me chamam de eu. Ou será que me perguntam o que é eu. Ou será que se me oferecem por trampolim em que chego à tua carne, a um só tempo, distante e tão feita de mim? Estranha e estrangeiramente minha. Foi de meu amar... Eliciei-me de meu amar: o dar de mim, germinal de mim. Dar de mim é, antes de tudo, receber-te. Ah, o ventre das coisas é redondo e teso e brilha como quem gesta o sol.
Me amor
Eu vou para o meu fundo tomar sol. Não aguento ficar engavetada à luz do dia dos homens. Quero um sol de poema. Que vontade eu tenho de viver. Volito desejos num céu de acaso. Deixo que me caiam na face flocos de devir. Abro asas e sortilégios numa amplidão de esmo.
Preciso aprender com a arquitetura eflúvea das nuvens, é macio que deito sobre elas o meu olhar. Essas distraídas transeuntes do céu. Passeiam brancas a sua elegância de ar, noivas de ar, caminhos de chuva. Quero aprender a beijar intempéries, a me inscrever numa essência vindoura, quero passar pelo tempo e nele deixar saudades. Aninhar-me na cadência dos meus passos, eu transeunte de mim, eu nuvem de mim. Caminho porque estou comigo e amo o meu passo. Sou serva de minha história. Serva de minha propulsão. Serva de meu Maior.
Indivíduos
Como ser, sitiados no campo de concentração individualista? Cada um, respeitável e digno, em sua privativa câmara de gás. Cada um de nós, operário da fábrica de holocaustos. Eu chamo de impossível um outro possível que a minha mesmidade aborta?
Capitalismo II
As tuas verdades "mocinhas". Nossas. Augustas e pias, pudicas e castas. Despudora-as. Conta-lhes sobre certas coisas. As verdades querem saber as verdades. Tu tens um rosto ou tens colado à face um outdoor sedutor que te vende a ti mesmo e abafa a mendicância da tua pele a quem cimentaram os poros? Chamas de cetro a marquise que te erigiram por lápide? Chamas "certidão de identidade" o manifesto que anuncia a tua incívica e desumana existência? Quem são esses médicos que consultas para que te façam autópsia? Ah, tu nem consultas. Apenas te sonhas são. Sei como é. Eu mesma faz horinha que acordei e só tomo café se for contigo. Adoro café.