quarta-feira, 25 de março de 2009

Poeta
Quando o poeta acordar
suado e sem rima
Largado e lasso nos lençóis sem métrica
nas estrofes desgrenhadas
Pálido, calado, caiado de lirismo
corpo molhado de entrega,
coração texto nu de linhas nuas
amado demais
dessa coisa indiscursável de quando alguém dá de amor a sua solidão
...
Dá-lhe um pão de centelha quente e branco
Não passa não a manteiga das palavras
Silencia, poeta
Incêndios
Adolesço femininos
Ser mulher é missão de ignescência
Abro a janela para que o hausto do dia me beije
Tão bonita a vida ardendo o dia
Flamejo
Tenho dentro um vermelho de filhos
Verto lava quando se me revoltam as fertilidades
Segura a minha mão, eu vou te gritar nascimentos
Meu trabalho é de parto, reparto, desapequeno o possível
Amo
Subo no telhado do mundo pra pulsar no vento
Quero meu cabelo assanhado
Receber lufadas de devir como uma rosa-dos-ventres
Girar ao sabor das minhas natividades
Há de ser amoroso, há de ser belo, há de ser "entre"
Estou tão amorosa que o meu peito se constringe
"Entre" é pulsante demais
Adormeço, sangro
Meu leito é o mundo no peito

terça-feira, 24 de março de 2009

Lentos
Quero amar lânguida, demorada
Demoro a minha nudez nas tuas mãos ubíquas
nas tuas mãos ilegisláveis
Arrebento a língua, empurro, esmurro a redondez de um poro
A boca convoca os pelos
Persegue os côncavos
desliza, arranca um grito
Cala, crava na pele
um desenho de hálito
Tatua o teu cio
Broto sucos, relevos, hasteio penugens
Ardo, urjo, insisto
Visto voragens
Mordo o teu corpo
Com a abundância de uma letargia

terça-feira, 10 de março de 2009

Poema de quem cala
To com o coração mais asa que peito
Só, calada, funda
E o meu degredo é esta beleza
Tudo quietinho
Clave de sol beijando o silêncio na boca dos pássaros
Tudo o que dorme em riste
Há cardume de brisas soprando os cios do lago
As borboletas em prece
Todo canto é pétala
Todo nada é nascedouro
Vasculho o avesso de mim e espalho sementes de centelha
Ausculto o adormecido das coisas florescendo
Tenho uma primavera no ventre
Preparo veias e ancas
Minha santa parideira
Também eu nasço na inflorescência dos instantes
Quero nascer miúda, sem grito, sem alarde
Quieta, como o balé das pétalas adolescendo o botão
Quieta, como o chão amando as sementes, fundando os jatobás
O mundo foi mesmo feito de uma beleza exagerada
Tenho fraqueza, não presto pra ser gente
Sou súdita dos meus olhos

segunda-feira, 2 de março de 2009

A mão
O homem tinha uma mão imóvel, fazia anos. O médico lhe dissera tratar-se de AVC, sigla morta para uma mão morta. Era uma mão feia, arroxeada, pesada. O homem a esquecia tanto quanto ela o esquecia, se assim o era.
Tinha uma vida grande, com grandes cascas. A empresa ia bem, lhe chegavam aos montes ramalhetes de cédulas. Comportava em si um catálogo respeitável no que tange à cultura, títulos importantes, insígnias. Ninguém podia acusá-lo de não existir, afinal, ele havia se vestido. Os que lhe falavam o faziam com os olhos baldios, apoucados, débeis. Enforcando as paisagens, semi-vendo, semi sis.
Sua família era "estruturada", luminosa mesmo. Tinha uma mulher linda e solícita, que o encarava pouco nos olhos, é verdade, mas, enfim, era seu o aquiescer.
Tinha muitos amigos. Mornos. Os copos para os brindes, os sorrisos para as fotos, os meios-olhares. Uma bela casa, protegida por circuitos de TV, equipes de segurança, apólices vultosas. E axiomas, muitos. Era preciso robustecer a tristeza. Era assim o que se chamava de beleza, os espartilhados. Desde há muito, o homem chama a sua dor de poder.
E aquela mão insistente. Mão morta, sísmica, muda-esbravejante. Era uma mão alma-penada, tinha convulsões, socava-lhe o peito "Eu te atormento para que pulses, eu estapeio a tua fúria amorosa de sob o rijo da tua superficialidade". Mão de disparar impropérios "Prefiro sentir teus estilhaços do que essa tua organização morta". Era violência, mendicância a mão que queria, às vezes, um pires de leite. Não raro amorosa, mão de dar, mão de pedir "Ainda tens carícia?" Confidência, arrastamento, sangue. Mão de criança, pele fina, chorosa "Eu preciso morar num afeto longo, preciso do tempo e seus dedos macios. Eu chamo o tempo de mãe?"
Não era afeito a espelhos esse homem. Quando, por acidente, um espelho o raptava, se contorcia, esquivo de si mesmo. Não lhe chocava tanto aquela sua palidez, aquele seu desviço, seu horror era daquela mão que estranhamente brilhava, evolava centelhas. A mão tinha a força de todos os sóis.
Era abrigar em si uma dissidência, uma tumescência estrangeira. Diabo de mão desapaziguada. A mão que não fazia parte, indócil, mão de apontar outra vida, outro possível. Obstinadamente imóvel, sua militância. Protesto. Ficava ali quieta, amealhando a si mesma, a sua sensibilidade particular.
O homem, mentalmente, amputava essa mão. "Que quer dizer essa fenda, esse vazamento? Tinha medo dessa sua grande força, dessa mão iara encantadora de marujos "E se nessa mão houver delícia?", "E se eu amar minha maldição?" Tinha medo de seu precisar humano, pequeno, fustigante, que medo dessa sua miríade de cores, dessa beleza, desse Maior incontido, essa hemorragia de felicidade, dá-me parar de ser, precipício de luz, de Vida, ser divino é morrer demais e se viver demais mata?
Ouvi falar que a mão, um dia, matou o homem. Para viver, muito do homem é lápide. Ouvi dizer também que o homem, um dia, a pediu. Já era hora de uma espécie de casamento.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A moça
A moça que em mim as coisas afundam feito asas. Bela moça, com olhos de urdir funduras. Eram assim uns olhos sorvedouros, de adentrar vastidões.
E de poros. Dela se dizia "lá vai a moça dos poros grandes". Cada poro uma dilatação de parto. Ela tinha no mundo assim uma espécie de engolimento, um assomar-se de ser gente. Doía nas coisas como se elas fossem de pele. E amava nas coisas como se elas gemessem.
Era de poucas palavras. Parecia que o pouco que dizia lhe vinha de viagem tão funda que chegava na boca num murmúrio, num eco, num tornar semi-falado o que é penhasco. Era mais de viver no calado, enovelada em seus cios. Precisava do tempo, da dor e de indizibilidades para parir.
Também não era de dor desnecessária. Dor é coisa sagrada, andaime de gente para estrela. Mas de não morar em andaime, gente é para ser de alegria. "Muitas vezes a dor foi mãe da minha asa e me ensinou a não desperdiçar o céu".
Tinha mania de nascer. Ela se nascia toda, era de parir-se toda e de trazer para si uma vida mais sua, mais fincada na sua vontade. Ia assim se formando no espelho "nasço na intumescência das horas que jorram vida". Era placentária com tudo, umbilical com tudo. Era mesmo de uma espécie de jorragem humana.
Porejava desejo. Tinha uma espécie de febre, uma espécie de ignescência, uma incontinência de fome, um corpo de escândalo, ainda que calmo, ainda que tácito, uma fúria em flores miúdas. E laços de amar, abismalmente.
O mundo, às vezes, lhe lanhava ou lhe amava. Mundo é coisa que se atraca consigo, açoite e epifania. Um dia lhe caiu de cheio, num só poro, gatinho bebendo leite. Cria tão tenra que parecia parida de anjo. Dom com pelagem de bicho.
Outro dia foi mão gordinha de criança em rosto de mãe. E farelo de inocência. E frágil. Doutra feita, anoitecimentos, céu cravejado de silêncios acesos. Palco de sentir sem mordaça. Mulher nua amando, bonita feito lírio chupando a noite. Mulher com renda na pele e coração com frio. Depois, homem viril, todo nu e de amor doendo. Homem mesmo, desses de dizer de amor e ter ferida no flanco.
Era todo dia um novo alarde, isso de não sei dizer, uma coisa que come o nome das coisas e vira um latejo, uma prece, um não cabe na voz.
Outro dia foi menininho doente, de brinquedo quebrado e com febre nos sonhos. Todo lágrima na noite, sem ceia e sem cata-vento. A moça sabia que existir é uma espécie de penúria. O mundo lhe lançava farpa e pétala. Ô coisa esquisita que é mundo, agrura e afago.
A moça, às vezes, sobe à tona. Tem dia que é serenidade. Folha cochilando n'água. Casal de flamingos no sol. Florada de açucenas. Tem dia que é leveza: a moça em mim são pedaços de ar entrelaçados. Tem dia que é dicionário. Dicionário é assim um catálogo de alegria, um fichamento de risada. Falando em dia, olha o dia: é quando a luz esculpe no ar o milagre da paisagem. Palavra: é quando o escuro vira nome e nome torna a virar escuro (palavra é moleque que brinca de esconde-esconde). Coisa boa esse negócio de se esparramar em letras. Meu dicionário parece relógio que só funciona no sol.
Tem dia que é mergulho-queda-livre, queda assim sem intenção, como árvore que cai com saudades da sua terra, é assim um pouco morrer, se saber semente. Às vezes, tinha pesadelos, acordava sobressaltada falando com fantasmas "Ainda habita o teu âmago um olho que mareja?"Tinha medo dessa sua pele fina, dos gumes do mundo. Mais medo ainda de criar crosta, deixar de aninhar a solidão dos outros. Dizia para si mesma "Tenho de saber que sou desumanizável".
Esses poros pesados pendem dela feito peitos. Difícil dizer da sina dessa moça. Tão ingurgitada, coitada. Tão acontecida de flamas e faltas. Tão forrada de flagelo e canteiros. Se de tanto doer, finda. Se de tanto gozar, esplende. Se de tanto ser, cala.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Poema desabrigado
Minha asa é a minha casa.