terça-feira, 27 de janeiro de 2009

POEMA PARA VIVI
É outono
O chão está coberto de palavras caladas
Perdi folhas e flores, peles e nomes
Dou-me aos ventos que me despem e que me trazem essa nudez nova e paciente
Eu não tinha esse frio, esse medo
Nem esse milagre
Não tinha esse farfalhar quebradiço de ramagens idas doendo em sementes que não sei
Me aninho em bicos de beija-flores nômades e de que outras flores eu serei?
Eu não tinha essa fenda no tronco, essa seiva supurada
Não tinha esses galhos trêmulos, esse ninho arrancado
Nem essa certeza estranha de que a dor me elegeu para uma outra mansidão
Não tinha esse sol intruso e valente lambendo de luz
Esse meu cancro, essa minha fundura
Esse ensaio de flor doce e assustado
Eu não tinha essa paixão nas raízes
Esse amor, essa fúria
Não tinha essa angústia funda feito a felicidade
Eu não tinha e não terei, na minha orfandade de folhas
Esse algo que de tão meu me abandona
Terei apenas essa fraqueza de caules
E um coração pequeno plantado na terra tímida do peito
Nua e úmida para a fome de meu sol
Caminhada
Sou toda passos
Desenho ainda em traços grisalhos a cartografia de minha invenção
Escrevi longa carta pra mim mesma e derramo letras pra dentro
Meu longo poema acalenta as minhas costas gravetas, meus sentimentos arfantes
Chamo o sol para a minha janela como quem encanta de mansinho um colibri
Tudo é tão imensamente hoje
O sol tem dedos antigos na minha face
Fecho os olhos
afago, lágrima, garganta apertada
O tempo tem sempre mãos meninas
Já não tenho frio
Sou de meu lirismo
Mas, quando em quando, ah meu Deus
E se eu sentir medo?
E se eu pedir pra que amparem minha luz numa mão de criança?
Conto segredos ao meu xale:
Não sei porque em mim as rosas desabrocham tão vermelhas
Chuvinha
Meu silêncio tem tímpanos pulsantes que captam o inaudito, ouço latências
Esse silêncio entremeado às gotas de chuva lá fora
Acho que chove em meu dentro
A poesia, às vezes, é feita de chuva
Que me lava no avesso, me afaga as curvaturas, me acarinha as contraturas
E essa solidão feita de chuva, tilintando no asfalto, também rompe a sede da terra
Que cheiro bom de terra molhada
cheiro de semente germinada
cheiro de mãos entrelaçadas

florada de afetos

Dromedários

Eu ontem quis corpo. Eu ontem soube que cometi. Eu cometi um poro que pulsa. Cometi um eu quente. Eu cometi uma inocência que goza. Cometi ser na boca. Cometi o desbragado, o macio, e mãos tensas num lençol. Cometi ter poros. Cometi a mim mesma, eu que delituosamente me derramo nos dias. Que como, sorvo, me refestelo. Cometi amar minha inocência. Cometi amar minha angústia. Minhas lacunas. Meus hiatos. Sem recheá-los de deus. Não quero um deus saponáceo, de me remover sujidades. Quero o Deus belo, lúbrico, que me ame na minha alguma coragem de acessá-lO. Reivindico o Deus capaz de beijar minha voragem e de alar minha pequenez.
Depois de velha dei pra fazer travessuras. Dei
pra desinventar pecados e fazer de conta que hóstia é confete. Deus me olha
de
soslaio, faz que ri e não ri [só para não me dar "liberdades"(ô diacho de
menina
arengueira)]. Mas no fundo aposto que adora. Pois não é que tem gente
excomungada
que se põe a desintristecer Deus? Pai do céu me deixa inventar
um menino sem
pregos nas mãos e cheio de azaléias? Me deixa inventar um deus
que não adoeça de
nós e que me impeça de calar a alegria? Um deus menino
cabelo no vento, com
catavento, coelho e pipa?

Sou a apedrejável porque tenho sensações e águas ilícitas e joelhos lassos e largura de risos. E borboletas numa manhã toda invadida de cios.

Eu vejo semi-pessoas, vultos enfileirados e secos, com
silhuetas de pó embalsamado. A solidez e a impáfia de suas tristezas mumificadas, seus ex-seres soldadificados. Só eu
chorei porque eles não têm mais água. São olhos
vazados. Eles vazaram de si mesmos? Seus olhares são abismos craquelados, halos opacos de uma
fundura que se matou.


E meu corpo queria corpo. Eu tive sede e tu eras dique protegendo areia. Foi teu dique que te fez areia? A minha pele queria pele e tu, arcabouço vítreo. Tu pincelas esse verniz que mata? Que te remedia de ser um eu?
E meu crime foi amar ser um eu. Foi amar ter leite e precisar da tua boca. Foi querer tua beleza. Foi não abdicar do leite. E de ter a arrogância de jorrar por entre as gentes. Meu crime é ter esse humano úmido à mostra.
A tua ausência me seca, me rapta para essa urdidura de pó. Para se ser mais belo é preciso se ser mais só? Se a beleza é dueto, são riachos brincando. Queres proteger tua doença para não me amar? Pra não descobrir o leite que às vezes dói? E se o teu corpo desejar corpo? Tu te amputarás de ti mesmo? E se os teus mamilos te acordarem na noite? E se houver filhotes, hálito, saliva? E se, no beijo, ainda houver boca? E se ainda não esquecestes a sede? E se eu ainda te amar? E se eu ainda sofrer?